Gonzaga Duque: O “Salão” de 1905

contribuição de Arthur Valle

Luiz Gonzaga Duque Estrada, um dos mais famosos críticos de arte da 1ª República, escreveu para as páginas da revista Kósmos, da qual foi um dos principais colaboradores, uma série de quatro resenhas versando sobre as Exposições Gerais de Belas Artes realizadas entre 1904 e 1907. Dezoito anos depois da morte de seu autor, esses textos foram reunidos e reeditados na coletânea Contemporâneos - Pintores e esculptores (Rio de Janeiro: Typ. Benedicto de Souza, 1929, pp.101-168); é essa versão que procuramos transcrever no que se segue, mantendo a sua grafia, bem como as indicações da paginação original. Texto disponível no site: http://www.dezenovevinte.net/

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Salão de 1905

No atrio, pouco distante do Gladiador, vejo passar a silhuêta ornamental duma esvelta senhora, encantadoramente cindida por um costume-tailleur cor de musgo. Num gesto rápido, em que a elegancia se confunde com a pratica, a sua estreita e fina dextra, em pellica branca, arrepanha a saia. Descubro a linha d'escorço dum borzeguim de verniz... Ella galga os degráos. Ao enviezar no lanço esquerdo, em frente ao nicho, apanho-lho o perfil, de relance. E’ claro. Tem a pupilla negra. Negros lhe são os cabellos, sobre os quaes decliva para a frente um chapeo de palha negra, empertigando a aba posterior sobre uma guirlanda de rosas brancas...

Penso: é um bom augúrio. Compro a entrada e o catalogo. Subo. Biombos vermelhos, um espaço curto. Levanto o olhar. Junto á trave da porta, a unica que da accesso ao Salão dividido em tres compartimentos, uma figura fria e negra me surprehende. Parece um corvo atalaiado. Attento melhor. E’ um retrato. No negrume das roupas, na treva do fundo, urna face pallida, a branco, permanece melancolica. Dizem que é o poeta Albano. Assim, em branco e preto, e naltura em que está, parece o actor Dias Braga... quando moço. Entrementes, sinto-me perturbado, um perfume delicioso, arrancado á flora exótica de paizes maravilhosos, penetra-me o ser, enlanguesce-me.

[116] Que é que me aturde tão deleitosamente?! ... Ha perto de mim a caricia duma sombra. Volvo o olhar e dou com elle na esvelta senhora em costume-tailleur cor de musgo. Suas pupillas negras, que são duas noites claras de lendas, fitam o retrato, por momentos; o fructo paradisiaco da sua bocca se entreabre - lucioleiam alvuras - e se arreveza gracilmente num breve momo...

E tenho o olhar fascinado por ella. Envolvo-a, encasulo-a no meu deslumbramento. Ella então, lentamente, volta para mim as noites claras das suas pupillas profundas. Percebo-lhe no semblante o reflexo dum desdém, mas que não offende nem repelle, porque apenas tem um vago de indiferença no indeciso duma surpresa. E’ o instante de todas as mulheres bonitas diante do estranho que as contempla. Olha-me e afasta-se.

Bem. Dou-me por satisfeito. Ao menos vivi um segundo na luz negra das suas pupillas profundas. E essa exposição começa a me interessar grandemente. Uma oleografia, com o titulo A Prece, parece-me despretencioso trabalho de amadora ingenua. As delicadas mãos que a envernizaram são, realmente, prendadas. que isso foi trabalho de muita paciência! Em todo o caso, mãos prendadas e que, sem duvida, com igual habilidade, tocarão mazurkas ao piano e darão ponto á calda do saborosos papos d'anjos!.... Mãos proveitosas de feliz senhora!

Adiante. Um quadrinho intitulado Primavera palpita na sua moldura. E’ dum espanhol, o Sr. Fernandez Gomez. Desenho certo, boa côr, luz intensa. Tem, como a maior parte dos modernos paisagistas hespanhóes, o maneirismo da feitura; mas isso não o impede de ser uma obra bem acabada. Dá-lhe graça a figurinha de mulher que, em meio da paizagem, recolhe flores.

Ha  tambám  uma vigorosa cabeça de velho tratada com audácia e segurança por um artista de grande valor, [117] que se chama Carlo de Servi, e um crepúsculo, do Sr. Cantanheda, um pouco molle, mas suavemente pintado.

Ao lado, o Sr. Dall’Ara expõe uma marinha: ao fundo uma ilha, assim me parece, crivada de casinhas. Agua mansa, um patacho ancorado, barcos em derredor. Tudo isto desenhado pacientemente e pintado ao vivo. Faltando-lhe o interesse esthetico do conjuncto, sobra-lhe o da observação. O Sr. Gustavo Dall'Ara possue, nesse processo, que lhe é peculiar, o mérito da probidade. Como pintura documental, excede á fidelidade photographica e se o captain do patacho o levar p’ra sua terra longínqua, ao envelhecer e quando puzer lume ao cachimbo, após o empanturro do repasto, poderá dizer á velha esposa, alçando o dedo nodoso em alvo a um determinado ponto da ilha:

- Estás vendo aquella casita, lá em baixo?... Pois alli, muitas vezes comi bananas com farinha...

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O lado opposto, em toda a altura do biombo, ha o reluzir de faianças vitrificadas, dominando o rosiclér.

Um velho cor de rosa, barbado e d’oculos de ouro, assim ao molde d’um conselheiro d'Estado, demonstra irrefutavelmente que o declive brusco das mesas de pés quebrados, sendo um problema d’equilibrio para a estabilidade dos objectos que a encimem, é também uma excellento tipóia para os braços aleijados; mais adiaste um velho cachimbeiro, que parece um vitral illuminado, emerge dum banho de carmim; vejo ainda um moço de dragonas diluindo-se na gloria rosea da sua elegancia, e, ainda mais o patifa d’um Sileno que vem provar á gente que o presunto de York é feito da carne dos beberrões. Como se vê nada mais alegremente instructivo. Demoremo-nos por alguns [118] segundos. Aqui está uma grande têla a que, por motivos vários, se pôde chamar uma têla abundante.

De pé, em meio do quadro, uma rapariga núa exhibe o seu dorso ao publico, E note-se que é um dorso... de se lhe tirar o chapéu, porque a superabundancia das redondezas assume propoções phenomenaes.

Em frente ao quadro, que é do Sr. Augusto Petit, está um homem pasmado. E’ baixote e atarracado, rebarbativo. Um par de soissas grisalhas ladeiam-lhe a caraça rapada e congesta; tem um bugalho turno, quasi lagrymejante, e para ver bem, para não perder minudencias, montou as lunetas na batata escarlate do nariz.

Eu (ao seu lado, a meia vos e timidamente) - A rapariga esta reluzindo, mas quanto a asseio parece que não é lá dos mais caprichosas...

Elle (olhando-me d’esguelha, meio desconfiando e irritado) - Aquillo é o sombreado, seu coisa. Você ínté parece que nunca viu pinturas!

Eu (humilde e tranquilo) - Ah!... é sombreado!.. Está bom. Parecia sujo. Nada mais natural do que haver poeira nas porcelanas...

Elle (escandalisado) - Porcelana?!!

Eu (procurando socegal-o) - E não é de porcelana, a rapariga?

Elle (numa risada, superior ante a minha ignorância) - O’ seu gajo!... você não vê que a menina está pintada na tela?...

Eu (ingenuamente) — Ah!... pintada, sim... Ora, quem diria?...

Elle (após um silencio, e com intimidade) - Cá estou a calcular os teres...

Eu - ???!!!

Elle (no mesmo tom) - Se o mestre deixasse-m’a p’r’ahi por uns oitenta a cem mil réis...

Eu - Comprava-a?

[119] Elle (triumphante) - Está visto que sim.

Eu (a piscar-lhe o olho) - E estava alli estava na parede do seu dormitório...

Elle - Nada! Não, senhor... Ia... mas era p’r’a sacada.

Eu (boquiaberto ) - Para a sacada?!!

Elle - E’ o que lhe digo, p’r’a sacada... Mandava o mestre pôr-lhe umas lettras...

Eu (ainda mais boquiaberto) - Perdão... não o comprehendo.

Elle (com amúo) - Homem- você não é lá, p’ra que digamos, muito sagaz!

Eu - Um poucochinho bronco, ás vezes... se me consente a modéstia...

Elle (embevecido no seu desejo) - E’ o que lhe digo... Aquillo na fachada do meu negocio...

Eu (atalhando-o) - Ah!   sim...   comprehendo-o... seria annuncio.

Elle (Radiante) - Isso!... Isso!...

Eu - E a casa de V. S. é de banhos?

Elle (com  orgulho) - Nada!   Não senhor...   E’  um negocio de fressuras e mais miudezas...

Eu – Original! E que lettras mandaria V. S. escrever no quadro?

Elle - Hom’essa! O titulo do meu negocio - Ao balão do Ferramenta!

Eu (curvando-me) - Está a calhar... V. S. é, simplesmente, um extraordinário symbolista!...

No segundo compartimento.

O Sr. Heitor Malagutti expoe uma original Quietitude, em que a sua característica d’imprevisto, por vezes falha, destôa da molle vulgaridade da maioria. Serve-lhe de assumpto o busto duma grave senhora que, amparando no regaço uma loura creança adormecida, levanta o braço esquerdo em movimento de offerta, segundo se deprehende pela laranja que esta na sua mão.

[120] Certo que essa pintura não tem o attractívo commum dos quadrinhos d’enfeite, é um pedaço de tela meditado, longamente, durante horas de idealização e ao queimar duma cigarrilha. E dentro da sua apparente simplicidade encontra-se algo de espiritual, que resulta duma idéa pre­-concebida. E’, em verdade, um obstáculo creado entre o artista e o publico essa maneira singular de interpretar e fazer; mas, dado que exprima a sinceridade dum temperamento e esteja conforme ás regras fundamentaes da arte, ao publico nenhum direito assiste de censurar o seu auctor além do que lhe compete em recusar a sua sympathia a essa obra. Nem por isso ella deixara de ser intensa e alcançar o seu destino, restringida, embora! a um pequeno circulo de amadores.

Ora, a Quietitude, se diverge da maneira commum de pintar, não se insurge contra os princípios inalteráveis do desenho e da côr, porque ella os respeita na relatividade do seu modo de ser. Sobre tanto possue, como obra d’arte, a objetividade do assumpto, que se lhe apprehende na serena phisionomia da grave senhora, a quem a rebuscada ingenuidade do contorno empresta uma característica expressão matronal, em que se externa o seu justo orgulho de procreadora. A firmeza macia do seu olhar possue uma penetração que excita pensamentos. E pela tranquillidade, como pela attitude, a sua significação completa-se nessa creança loura, adormecida no seu regaço, tal houvessem, ambas, sahido dum muro de templo christão onde as deixaram os cândidos pinceis dum decorador primitivo.

Dahi provem a fixação intencional do artista, que pretendeu e conseguiu dar ao quadro o caracter preraphaelista dos esthetas rebellados contra a tendência copiadora da arte contemporanea. E não só pela espontaneidade do traço, como pela intenção das minucias, ’té o accionado desse braço cuja mão segura uma laranja no gesto exta- [121] tico com que os gregos dos áureos tempos traziam nas palmas os pomos de ambar, a sua obra é um documento dos schismas estheticos que se controvertem modernamente e, tambem, affirmação duma individualidade inconfundível entre os que mais se destacam na pintura da nossa época.

Originaes e admiráveis são tambem esses dous artistas franceses que concorreram ao nosso Salão, o Sr. Eugéne Morand com as Nymphas e o Sr. Guillomet com o Sacramento.

O pequeno quadro do Sr. Morand é uma suave harmonia do tons brandos. Paisagem ampla e pardacenta; apenas algumas arvores frondejam ao longe. Céo pallido e frio. A’ esquerda, nesgando em cavada ribanceira escura o terreno sombrio, róla morosamente a corrente pallida dum rio baixo. E no pardo outomniço da planura, sob a fria pallidez dos céos, uma ronda, miniaturada, de nymphas bailando, cujos corpos, na tenuissima transparência das vestes brancas, não interrompem a tonalidade suave e sugestiva dessa pequena tela que faz lembrar Schubert.

O Sacramento do Sr. Guillomet contrapõe-se á meiga delicadeza desses tons, porque a sua intensidade colorida aturde. E' uma irradiação verde e amarello em contraste brusco com o primeiro plano, todo elle feito do corpo de raparigas em amplos vestidos azul-escuro. O quadrinho mede pouco mais de três sobre dois plamos, se tanto! Desenhado com firmeza, também a sua cor possue um vigor fascinante, que mais surprehende pela singularidade da concepção. Em ar livre, por entre folhagens verdes dum parque, uma multidão de raparigas, coifadas á maneira normanda, se agglomera em torno dum sacerdote, em vestes pomposas, que levanta, á altura dos braços distendidos o ciborio flammejante á lua do sol. Do meio da multidão, a contêl-a, surge o dorso vermelho dum suisso, com o seu chapéo de dois bicos e armado de bastão e bengala. A luz é auri-verde, faiscante, aturdidora. Todas as cabeças, as [122] ricas paramentas sacerdotaes, os vestes dos acolytos, o scenario inteiro, tudo arde num verde apotheosico com o qual se funde o amarello rutilo dos metaes e dos bordados. E tambem o fundo - onde se vê a parede duma capella, viva na mesma féerie de verdes intensos, berrando a violência do seu vigor como a explosão d’uma gruta d'esmeraldas na selvagem claridade dum meio-dia dos trópicos!

Com a mesma nota de verdes luminosos, não obstante a differença do assumpto e da technica, instiga-me a attenção o quadro do Sr. Rodolpho Chambelland - Bacchantes em festa.

O Sr. Chambelland no Salão anterior obteve successo com o seu quadro de estréa e, para não desmerecer a confiança inspirada, volta neste anno com cinco trabalhos, dos quaes é o mais exigente de cuidados, esse que lhe foi suggerido pela sensualidade do paganismo,

E’ um ar livre em que ha muito talento e não pequena somma de artificio, mas artificio perdoável diante da immensa difficuldade em que um artista se encontra, em nossa terra, para obter modelos que satisfaçam a uma composição variada como é essa. Em verdade, taes assumptos, quando se não recommendam pela belleza dos nús ou eminente originalidade da composição, descambam rapidamente para o ridículo. Isto posto, comprehende-se o quanto trabalhoso se tornou ao moço artista a feitura do seu novo quadro, e dahi toda a desculpa para o artificio, empregado a titulo de recurso, o que é flagrante logo na visível transformação do modelo feminino em varios typos, e modelo a que falta, em absoluto, a elegância e flexibilidade do que serviu para a bobagem envernizada do reincidente Sr. Petit. O mesmo artificio está repetido na theoria de bacchantes desdobrada ao longo do campo, em que a impossibilidade do nú ao ar livre obrigou o artista não só a falsear valores do cor, como a confundir cm massa uniforme os corpos á distancia.

[123] No emtanto, a sua composição merece francos elogios pelo distendimento gracioso da linha serpentina e pelo excellente effeito do contraste da sombra do primeiro plano com a larga claridade dos planos secundários. As figurinhas, tocadas de cor, são bem movimentadas e expressivas; a paizagem é vasta e illuminada, transmittindo a impressão fresca do dia; as perspectivas felizes, o céo díaphano e claro. O que lhe foi notado no quadro do estréa aqui mais só accentua o asseio da palheta, o acerto da maior parte dos valores, a delicadeza dos detalhes e, com essas qualidades, a mesma fraqueza pelo chic, quo hoje é apenas um senão, mas amanhã póde ser um defeito...

Em todo o caso, esse Sr. Rodolpho Chambelland mereçe um bravo!...

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E’ neste compartimento que encontro duas télas do mestre Elyseu Visconti. Dois retratos. Um, é de menina transformada em moça, d'olhos celestes e cabellos negros,clara e rosea, transudando o capitoso aroma da mocidade e toda primaveral no seu vestido branco.

Se não é linda é real. Ella ahi está numa leve cadeirita de bambú, braço apoiado ao espaldar, a mão esquerda, cujos dedos apertam umas flores singelas, descançada mollemente sobre o regaço e viva, palpitantemente viva, com a rijesa de sua carnação de moça e a calma ingenuidade dum olhar celeste a que o negrume dos cabellos sombreiam estranhamente.

Outra é a fixação imagética da esculptora brasileira D. Nicolina de Assis.

E’ pois, um retrato, mas desses retratos que ficam nos archivos da arte e perpetuam o nome dos seus auctores, porque são mais do que reproducções, são valiosos productos da téchnica, nos quaes se concretisam segurancas de [124] forma, meritos de palhéta e qualidades surprehendentes de expressão.

O retrato de D. Nicolina de Assis é uma obra completa, como é o de Lucrecia Criveli de Leonardo, o de Castiglione de Raphael, o de Anna de Cléves de Holbein, “o homem da luva” de Ticiano, o da Condessa d’Albermarle de Reynolds, o de Mrs. Siddons de Gainsborough... uma obra destinada á reputação d’uma pinacotheca ou ao orgulho d'um amador...

Olha-se-o e difficilmente se lhe retira o olhar, tal o encanto em que se fica, porque o seu conjuncto é uma harmonia de côres severas, mas duma simplicidade tocante, em tons serenos que vão das duas ténues nuanças da chapada do fundo pardo até o escuro zuartino do vestido, pelo qual se fixa o equilíbrio dos tons intermediários representados pela fourrure de pello pardo que lhe envolve o pescoço e pelo tom beije da capa. E’ dessa suavissima, severa e inteira harmonia de pardos, em que o oca se justapõe ás terras, que resalta a massa escura do vestuário, ’té o negrume violento dos cabellos e do chapéo. Então, na intensidade negra dessas duas tintas, aclara-se o rosto admiravelmente modelado da intelligente esculptora patrícia. E’ bello?... Certo que sim, é bello porque não existem artistas feios.

Não tem o seu rosto o clássico oval das madonas nem a proporção geométrica dos typos communs das bellezas convencionaes; é, porém, uma cabeça que indica um espirito superior, que se desvia do desenho vulgar dos demais typos do seu sexo pelo facies inculcativo dos tocados pela chamma divina dos creadores. Por isso é bello. A belleza na arte não resulta da justeza ao molde admittido para essa qualificação, resulta da vida, da verdade, do poder expressivista da obra.

Nesse rosto o que se procura não é a proporção das linhas, a forma mais ou menos pura do nariz, o recorte [125] perfeito da bocca, a linha gracil do mento; o que se attende e se quer, antes de tudo, é a expressão physionomica, a visagem, esse subjectivismo que constitue a espiritualidade do typo e que só sabem fixar os pincéis dos grandes artistas. E é o que se tem neste bello retrato, nesta forte, poderosa obra de arte, porque este olhar como que avelludado por uma sombra de sonho, esta bocca que tem o calor da vida e pela qual a palavra deve escorrer ardente e meiga, a graça inconfundível desta cabeça, não são simplesmente duma mulher, são de um ente que só realça entre seus semelhantes e para o qual o nosso respeito é mais movido pela admiração do seu talento do que, propriamente, pelas prorogativas do sexo.

Mas, será um retrato na sua precisa significação? Não sei se a Sra. D. Nicolina de Assis é esta que aqui vejo; mas sei, e disso tenho absolula certeza, que esta que aqui está viva na téla, com este rosto, com este olhar, com este modo de descançar a dextra na cintura, esta é que é a esculptora Nicolina.

E em quanto goso a emoção que me deu esta a obra, corro os óculos pelo compartimento. De repente paro. Desmonto os óculos- cuidadosamente limpo-lhe os vidros o torno a olhar. Levanto-me da cadeira, approximo da téla que me prende assim a curiosidade, procuro posição, afasto-me, passo á direita, movo-me para a esquerda... Mas, é sempre o mesmo effeito... aquella mão é u’ma mão... macho, uma mão que ha de mammar na posteridade o renome da sua grandeza. E, senhores, esse mimo, esse dóte, esta tétéa de cinco dedos, pertence a um pianista. Até parece reclame. E’ que o homem tem mão para as encommendas. Mas, com franqueza, aquillo no teclado, Virgem Nossa Senhora, põe o mundo abaixo!

Em compensação o Sr. Lucilio de Albuquerque livra-me daquella formidavel manopla que o Sr. Bevilacqua condecorou com um brilhante, retendo o meu olhar na sua elegante cabe- [126] cita de mullher, feita com o nervoso ardor da sua bravura pinturesca.

Depois, pelo alto das paredes, entre umas marinhazinhas, das quaes apenas percebo uns barquinhos e umas praiasinhas, muitas mangas, muitas laranjas, muitas bananas, então bananas em penca! E’ uma quitanda desesperada, o Largo da Sé e a Casa Cypriano em concurrencia de exhibição, porque a maior parte daquellas fructas pa­rece bugiganga de salas, ao modo dos fructos cm louça, pintada e envernizada.

Esses Srs. amadores não terão mais que fazer?...

Terceiro compartimento.

Encontro outro Chambelland, o Sr. Carlos Chambelland, irmão do Rodolpho.

O seu quadro d’estréa é um retratinho de senhora, em corpo inteiro, num vestido de fazenda azul marinho, mitenes brancas, sapatos brancos e sóbrios enfeites brancos. Esta sentada num canto de divan estufado de amarello, apoiando o corpo numa almofada azul celeste. A cabecinha Penteada em bandós, que são negros como seus lindos olhos, tem uma testeira de contas, brancas, á moda italiana do século XVI, mas estando o fio posto sobre os cabellos. E’ uma feliz estrea, um promettimento confiavel, esse quadrinho, bem desenhado e já muito bem pintado para um artista ainda não emancipado das aulas. Se o talentoso estreante, em ves de se subordinar á modéstia do interior em que está a retratada, se désse ao capricho de harmonisar os accessorios com o vestuario della, isto é, mantivesse o quadro numa gamma ou procurasse contrastes, poderia ter conseguido mais realce para a sua obra, ainda assim muito boa.

Mestre Baptista da Costa expoe oito paisagens, oito admiráveis trechos desta nossa brilhante natureza por elle [127] surprehendida com o segredo da sua arte, para a qual já esgotamos toda a provisão de elogios.

A Prisioneira e a paizagem de Poços do Caldas são duas telas que fazem a reputação d’um artista, particularmente esta ultima com a intensidade da sua luz num verde que é caracteristicamente o verde da nossa natureza. Os outros quadros, o fulgurante Começo do dia, o Canto do praia. Estrada do Vidigal, Ipanema e Mau tempo teem a marca da sua preciosa palhêta, são observados e retidos com a sua maestria sempre louvada. Mas, como me entristecem esses bellos quadros!... a mim, que por mais que rebusque o martyrise os bolsos nada encontro! Felizes os que teem dinheiro!... Talvez nem tanto!... em todo o caso, nessas occasiões, a gente lhes inveja a bolsa...

O Sr. professor Henrique Bernardelli... Desta vez o Sr. professor Amoêdo pregou-nos uma peca. Esperava-mos uma composição nova, uma bella obra cheia de novidade e de saber, mas o Sr. Amoêdo não quiz nos dar esse goso, descançou nos triumphos de seus discipulos, os Srs. Chambelland. Agora quem me faz perplexo é o Sr. professor H. Bernardelli com os seus dois retratos, o do Sr. Machado de Assis e o do Sr. Dr. Ubaldino do Amaral, sem duvida que pintados por mão de mestre, mas, não sei porque, temperados com chocolate. Talvez para metter figas ao Sr. Amoêdo com a sua pintura a ovo.

O professor Benno Treidler, que concorreu á secção d’aquarellas com uma interessantissima Leitura interessante e dois outros vigorosos trabalhos, expõe um quadro a óleo - Manhã - pintado com a sua largueza de habituado manejador de pinceis. A hora parece-me bem surprehendida pelo Sr. Treidler, ha frescura na paizagem e o ambiente neblinoso é leve e illuminado.

O professor Pedro Weingartner é, como sempre, o paciente e meticuloso mouchiste das figurinhas lilliputianas [128] e das paizagens microscopicas, mas, innegavelmente, com o valor dos seus serios conhecimentos de arte, e o Sr. Brocos, o fixador dos nossos costumes roceiros, ahi figura com um crepúsculo tocado com o brio a que nos acostumou, e um retratinho.

Apresenta-se nesta exposição o Sr. Theodoro Braga, ex-pensionista da escola na Europa.

A mim parece-me que o Sr. Braga preoccupou-se muito com o estudo do desenho, no que andou bem avisado, mas quanto a pintura pouco pôde fazer ou, se não é de temperamento avesso a pintura á óleo, deixou-se influenciar de mais pela maneira do inglez Youg Hunter. A maioria dos seus quadros tem uma seccura de chapada d’estamparia e é recortada, como pintada pouco a pouco em zonas propositalmente estabelecidas. Entretanto a sua aquarella - Castello Medieval - possue bem o caracter do genero e é vigorosa; a mancha é feita com segurança e elegância.

Na Manha de anniversario que, antes de ahi figurar, esteve exposta por longo tempo na Casa Rembrandt, o defeito do recortamento esta mais attenuado que no Vecchio Cantore ou na Melancolia; ainda assim os pannos brancos que formam todo o fundo perderam a sua frouxidão, a sua leveza, por causa dessa maneira. Esse quadro, em que o pintor procurou vencer a difficuldade da gamma em branco, falha ao effeito desejado porque a delicadeza das nuanças da gamma escapou á attentiva do seu auctor e as sombras foram densadas com uma violencia desastrosa. Ao demais, o artista fraqueou nos valores do segundo plano em que está a mulherzinha deitada; ahi a confusão dos volumes é infeliz, o quadril da rapariga, o qual está envolto nos lençóes, tem um destaque brusco sobre o resto do corpo, quo se funde numa meia tinta quasi transparente, inutilisando a densidade do resto do corpo e sobretudo a vida da cabecita morena do modelo. E, no emtanto, [129] o artista empregou todos os recursos do pontilhamento para destacar a chocolateira de nickel e outros accessorios correspondentes que estão num gueridon, ao lado da cabeceira do leito, na mesma penumbra e na mesma distancia em que se acha o busto da figurinha!

Mas, quanto a desenho propriamente dito, isto é, á marcação do assumpto, o Sr. Braga sahiu-se bem, como bem se destaca em os outros quadros expostos.

Creio que o Sr. Braga, pelo seu temperamento, por sua tendência á simplificação e uma certa originalidade no combinar o assumpto, no qual muito se descobre de paciência, daria um bom cultivador de artes applicadas.

Aqui está o Sr. Latour, premio de viagem á Europa. Nada menos do quinze quadros, mas quinze quadros que attestam a sua applicação e annunciam um grande artista a se formar.

Pondo de parte o maior delles, Praga Social, que me não agrada pelo assumpto já muito batido e muito pouco pinturesco tratado pelo modo porque foi, qualquer de seus trabalhos evidencia o relevo duma individualidade incipiente. O asseio, a frescura, o brio da sua palhêta são já notáveis; o desenho sae-lho certo da mão trabalhadora e os assumptos trazem o cunho do seu interesse por uma arte inspirada na natureza e com ella vivendo.

As Tesourinhas, destacadas da sua obra, constituem um adorável quadrinho pela composição, pela graça real das três figurinhas, tão alegremente vivas no frescor desse ambiente de manhã domingueira! E’ ainda essa franqueza e firmeza do fazer, das quaes resalta o modelado á luz franca, que se nota nas Flores e Mocidade, motivo bem arranjado para um nú. Mas se o elogio pela habilidade da pintura, não o farei quanto á escolha do modelo e á posição que lhe deu. A magreza da rapariguita que pousou é tal que suas formas não correspondem ao titulo da obra.

[130] Esses membros são os de uma adolescente e a posição, intencionalmente forçada para não lembrar poses conhecidas, dá-me a impressão d’uma acrobata que se desconjunctou numa queda.

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E ainda mais paizagens!

O Sr. Luiz Ribeiro, que é um artista consciencioso posto que abusando da minudencia, tem cinco quadros dos quaes quatro são paizagens. O de figuras, sob o titulo Véspera de noivado, é um quadrinho de genero, estudado com esmero, mas que pouco me interessa, o que não quer dizer que deixe de interessar a outros. De suas paisagens mencionarei Ultimos feixes, muito illuminada e de boa perspectiva aerea.

Retorna a expôr a Sra. Eulalia Silva, que no catalogo, figura com o nome de Eulalia do Nascimento e Silva com o appendice de um D maiúsculo, entre parenthesis, para que todo o mundo saiba que ella é Dona... O que eu sei, e com isso é que me importo, é que realmente a Sra. Eulalia é dona de uma grande vocação para a arte, mas ainda medrosamente agarrada á influencia do seu professor.

A Velha estrada se tivesse mais um pouco de vigor no primeiro plano e mais observação nas massas do fundo, seria excellente trabalho. Em todo o caso, quem isso faz promette muito.

Ora! aqui tenho urna paizagem que me não fala unicamente á vista! E’ esle Crepusculo de Roberto Mendes, um pintor espiritualista que, depois de nos encantar com os seus admiráveis pasteis, voltou-se para a pintura a oleo e vae fazendo uns delicados poemas de saudade com os recantos de Natureza entendida por sua alma de poeta e interpretada por sua miraculosa palhêta. E’ um trecho do parque abandonado; o rasgão dum lago divide-o pelo cen- [131] tro, em duas margens. A galhada contorcida d’uma velha mangueira estende, ao alto, a bambinella atormentada de seus ramos; ao fim da margem esquerda uma figueira brava pende sua fronde para a agua, silenciosa, coberta de farrapos d'algas, onde se reflectem, em tons roxos, ramarias e troncos, e todo o cambiante colorido do crepúsculo, desde o amarello dourado dos derradeiros raios solares ate o verde e o azul pallido das alturas. Mas, nessa reunião de tintas, nessa diversidade de côres, ha uma consonancia admirável, em que o saber do artista se affirma soberanamente sobre o vulgarismo das feituras applaudidas. E mais do que isso, que é um mérito de technica, a sua paizagem communica-se com a nossa alma, prende-nos dentro da sua verdade e nos dá a sensação da sua vida. E’ este o mérito desse discípulo de Ruskin, que só não deixa fascinar pelas lantejoulas dos triumphos faceis nem se corrompe com as imposições burguezas do meio.

A sua arte é um culto, para o qual vive, como um eremita, obscuro e possuído. E por se lhe entregar com esta ardencia, ella lhe transmitte os seus segredos, ella se lhe familirisa, requinta a sua visão, palpita nas suas tintas, passa para suas télas com essa intensidade rara, ou diz o seu sentir, extranho, incomprehendido, por demais subtil para o entendimento dos que a querem e procuram só como a um goso da vista e um complemento decorativo das salas.

Bemdicto o artista que assim nos faz entender e amar a Natureza!

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Alegres desenhos e desopilantes caricaturas do Raul... Boas aquarellas das irmãs Vasco...

Diante das medalhas do Sr. Augusto Girardet reencontro a esvelta senhora em costume-tailleur côr de musgo.

[132] Ha nas suas pupillas o quebranto de um goso, toda a ternura dos delicados espíritos embevecidos na contemplação dum objecto d'arte. E sorri glorificando com a luz do seu inexprimivel sorriso a obra do Sr. Girardet. Sorri e retira-se.

Durante segundos fico desatinado, sem pensar, sem saber o que fazer... Mas, onde está a Esculptura? Não ha esculptores, não ha uma aula d'esculptura nesta terra?... E a Sra. Nicolina, a Sra. França, o Sr. Berna, o professor Bernardelli?... Que faz o Sr. Correia Lima?... Triste pergunta! Que faz o Sr. Correia Lima... Ora, que ha de elle fazer?!... Por espaço de quatro ou cinco annos o governo brasileiro manteve-o na Europa; de lá nos mandou o artista tres bronzes em que se confirmavam o seu talento e applicação, de lá veiu com um bello gesso, a Mater Dolorosa... e esperou que lhe dessem trabalho. Mas não havia trabalho. O Sr. professor Rodolpho Bernardelli, director perpetuo e senhor absoluto da Escola de Bellas Artes, não sei se commendador de varias ordens estrangeiras, conselheiro esthético do governo e outras instituições monnopolisava todas as admirações e todos os trabalhos. Estavam na sua celebre officina o Teixeira de Freitas, o Dr. Francisco de Castro, o busto do conselheiro Thomaz Coelho, o Carlos Gomes.. e não me lembro que mais gloria nacionaes lá se foram metter... Tinha S.S. ou Sua Eminencia uma enfiada de encommendas: o frontãoda Escola Polytechnica, a ornamentação do Chafariz da Carioca, os bustos da fachada do Theatro S. Pedro, estatuas para o Theatro Municipal, um refugio para o largo da Lapa, figura symbolica para o pseudo palácio das Academias, glorificações bronzeas de presidentes de associações commerciaes, ornamentos para palácios d'Avenida... e mais... e mais... por atacado e a varejo.

No emtanto, o Sr. Correia Lima, com quem o Estado gastou dinheiro para o aperfeiçoar na arte d'esculpir, e [133] cujo aproveitamento demonstrou em magníficos trabalhos, ficava ás moscas, com o seu sorrizinho do bom menino e todas as suas illusões mettidas num sacco!...

Não sei se elle só queixa, porque mesmo não sei onda elle vive; mas isso é uma grande injustiça, em que se tem a lamentar a inutilisação dum talento e o exemplo nefasto offerecido aos que pretenderem ser artistas.

Ah!... percebo que se me foi o bom humor depois que aquella formosa dama de lindos olhos partiu. E quem seria?... Ora, que me importa saber quem seria tão donairosa senhora! Uma deusa, talvez, descida á terra para dar a um pobre mortal, arruinado e triste, a alegria necessária á sua penosa missão... De qualquer forma, verdadeira ou imaginaria, deusa ou simples madama três estrellinhas, de qualquer forma, uma linda mulher! Isto basta.

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